quarta-feira, novembro 10, 2010

O Grito

No início, quase parecia uma pergunta filosófica: interroguei-me de onde vinha, quem o dava, por que razão. Era um grito intenso, assustador, forte, sofrido. Durava uns segundos, o que fazia com que o alarme inicial que me provocava nem sequer tivesse tempo de ser investigado ou socorrido, pois logo se instalava, de novo, a calma. Mas naquela fracção de tempo a casa tremia, as paredes tornavam-se de papel, trespassadas por aquele som angustiante, o meu coração acelerava de pânico e os meus cinco sentidos disparavam em alerta: Que raio era aquilo?!
Depois, com o tempo, fui-me habituando. A experiência dizia-me que nada de mal dali advinha, que aquele horror era passageiro e inconsequente, que daria lugar novamente à calma e à ordem. Apercebi-me, contudo, que não era a horas certas. Umas vezes à tarde, outras de madrugada, outras aos fins-de-semana de manhã, era aleatória a sua exclamação. Previsível era a rotina que se lhe seguia e em que comecei a reparar: um descer de escadas, um bater da porta da entrada, um ligar de carro na rua.
Um dia, a curiosidade foi mais forte do que eu e segui-o. Depois de o ouvir, colei o olho à mira da porta, espiando as escadas do prédio. Vi-o descer descontraído, assobiando, aliviado. Vi um homem alto, entroncado, ligeiramente calvo, mas de viris braços peludos, aquele mesmo que um dia, à entrada de casa, vira roubar um beijo à cinquentona inquilina de cima e percebi finalmente o porquê de todo aquele clamar: aquele grito de dor, de aflição, de tormento, mais não era do que o orgasmo histriónico do histriónico namorado da vizinha.

Originalmente. postado aqui

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segunda-feira, outubro 25, 2010

Com "O grito"...

Hoje, sou a convidada do Delito de Opinião. Vão ler, vão!

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segunda-feira, julho 05, 2010

A culpa não é minha; é dele!

Um fim de tarde magnifico. Uma amiga telefona-me, desafiando-me para um passeio à beira mar. Eu resisto. Digo que não, que tenho de trabalhar. Sem vontade, arrasto o portátil para a varanda − na tentativa de me iludir de que não estou a perder os últimos raios de sol − e preparo-me para rever o meu próximo trabalho literário, pendente há uma data de tempo. O silêncio reina, as ruas estão desertas, pois na televisão joga um dos favoritos do campeonato do mundo de futebol. Só a natureza, ao longe, dá sinais de vida com o piar ávido das gaivotas sobrevoando o Atlântico. Sento-me. Rodeio-me das várias versões do manuscrito, abro o Word. Esforço-me para me concentrar. Aqueço os dedos, como um pianista, preparando-me para debitar a primeira palavra. Mas eis que sou interrompida pelo som estridente do grilo que habita a gaiola em cima do frigorífico. Um som agudo, alto, muito alto, que me agride os ouvidos, me fere os tímpanos, levando-me constantemente, quando estou perto dele, a equacionar pô-lo porta fora, quebrando, desta vez, com a tradição anual de todas as Primaveras, pelas festas populares, comprar um destes insectos cujo cantar anuncia o Verão.
Desligo o portátil, pego no telemóvel e marco:
− Estou, Ana? Onde estás que vou ter contigo?!

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terça-feira, junho 15, 2010

Há qualquer coisa de errada com os machos da minha família

No outro dia experimentei uma receita da Nigella: o Chocolate Pistachio Fudge. Segui-a à risca, não esquecendo até a sua desastrada badalhoquice (Sofia, só tu para me fazeres usar esta palavra. Blahc!)
Levei a iguaria para o almoço anual de família: quase uma centena de pessoas, das quais cinquenta por cento eram representantes do sexo masculino. Ninguém a provou. Nem um! Eu bem incentivei, usando o irrefutável argumento junto dos "possantes machos viris": “É uma receita da Nigella”, mas a rapaziada não frequenta a blogosfera, nem vê a Sic-Mulher e fitou-me com um ar enjoado e com uma incógnita no olhar: “Da quem?”. Um desconsolo! Foi uma pena o Francisco José Viegas não estar por lá. Ou o Afonso!
À noite, bem me lambuzei, sugando gulosamente os dedos, quando a meti no frigorífico, mas − bolas! − nem o meu marido lhe pegou!


(Inicialmente, postado por mim no 31 da Armada)

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quinta-feira, março 25, 2010

Por aqui, limpam-se feridas e narizes com gasóleo

Estou outra vez na Alemanha. No país do desenvolvimento. É conhecida a minha relação de amor/ ódio com o país “maravilha” que me deu o meu último apelido. Tudo aqui exala robustez e tecnologia. Em casa, tenho três computadores, um deles ligado a um ecrã tão grande que, confesso, até me sinto intimidada pelos meus textos, enquanto os escrevo. Na garagem, um carro veloz e seguro. Na sala, uma televisão com tantos comandos que nem consigo entender para que cada um deles serve. Uma aparelhagem XPTO. Umas colunas XYZ. É normal, todos (ou muitos) têm. São acessíveis a muita gente.
Ontem precisei de álcool e de soro fisiológico. Fui a um supermercado, como sempre faço em Portugal. Não havia. Procurei numa drogaria. Também não encontrei. Recorri a uma farmácia. Consegui o soro, num formato estranho... e caríssimo! Já com o álcool não tive tanta sorte: só mo deram depois de garantir a pé juntos que não o ia beber.
Não é por nada, mas tenho para mim que as crianças alemãs limpam as feridas e o nariz com gasóleo...

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terça-feira, março 02, 2010

Louca

Gostava de ser metódica. Pontual. Organizada. Irrepreensível.
Gostava de ser correcta nos meus hábitos: de acordar às oito, de tomar o pequeno-almoço, de almoçar ao meio-dia em ponto, de lanchar às cinco.
Gostava de comer regradamente, de me deitar cedo, de cedo me erguer. De ter rotinas. Horários. Disciplina.
Gostava de ser normal. De gostar do dia, mas é a noite – essa louca! – a minha amante.

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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Não invente. Para quê cartão Continente?!

Tive a infeliz ideia de aderir, na altura do lançamento – quando quase todos os produtos tinham descontos – ao cartão Continente. Assim, num impulso entusiasta ingénuo, ofereci de mão beijada os meus dados e o meu perfil de consumo ao Grupo Sonae.
A partir daí raramente obtive descontos. Quando questiono “porquê?”, as meninas da caixa encolhem os ombros e dizem-me que estes só existem em determinados produtos, os quais quase nunca fazem parte das minhas escolhas. Garantem-me, contudo, que quando atingir os 500 euros de compras serei recompensada.
Ontem atingi esse “chorudo Jackpot”, mas confesso que preferia que tal não tivesse acontecido. É que, uns míseros 5 euros de crédito no cartão, fizeram-me ter consciência de que já gastei tanta massa nas lojas do tio Belmiro.

[também postado aqui]

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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Continuo a sonhar com África

© Foto: ? / Na foto: Laetitia Casta

Recebo um SMS de África. Na Mauritânia, um amigo meu janta em casa do seu guia, com a família deste. Sentados no chão sobre almofadas, comem um cabrito [fantástico] com arroz frito. “Primeiro comem-se tâmaras com natas; depois o cabrito; só depois, então, o arroz. Tudo com as mãos e da mesma travessa”, diz.
Falam de escravatura e ouvem música árabe. O pai do seu guia é berbere. Tem cinco mulheres e dezasseis filhos. Pertencem-lhe cinquenta escravos. A escravatura foi abolida oficialmente em 1980, mas continua a existir. “A maior parte dos escravos prefere continuar assim porque tem comida e tecto. E não são espancados”, informa-me.
Imagino-me ali sentada. Entre o filho e o pai do guia, de dedos gordurosos e paladar satisfeito. Oiço a música que toca. Sinto o cheiro seco da terra árida invadir-me as narinas. As cores ocres da paisagem consolam-me a vista. Tenho os sentidos em alerta. Estou em África!

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domingo, fevereiro 01, 2009

A bela África

© Foto: ? / Na foto: Laetitia Casta

Não há um livro que me prenda, um filme que me empolgue, um acontecimento que concentre a minha atenção.
Em contrapartida, dou comigo, recorrentemente, a sonhar com tons caqui e padrões selvagens, safaris e longas caminhadas, sob o sol abrasador – e único – do belo continente africano.

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segunda-feira, abril 24, 2006

Uma Espécie de Redoma

Como toda a gente, tinha segredos que a ninguém confessava. Havia um, porém, que numa espécie de superstição, guardava com especial cuidado, não fosse a revelação afastar os seus efeitos mágicos.
Quando o caos se instalava, e o mundo ameaçava desabar, pegava no carro e conduzia, invariavelmente, rumo a um lugar secreto. No leitor de CD`s a música acalmava-lhe a angustia e a brisa, nos cabelos, relativizava-lhe os problemas. O sol, mesmo quando não brilhava, iluminava-lhe as ideias e a humidade − vinda do mar − refrescava-lhe as emoções.
Chegada ao local estacionava, mesmo ali, perpendicular ao oceano, e ficava a ver o voo picado das gaivotas e a invejar a sua leveza. Via-as planar, aproveitando a força do vento, num bailado dessincronizado, mas perfeito. Via-as fintar a gravidade, numa descolagem arrojada e engana-la, numa aterragem elegante. E ficava, ali, no meio delas − tantas! − num exercício sobrenatural de criatividade, a elevar-se com elas no ar e a cortar o céu com a mesma veloz graciosidade.
Depois, fechava os olhos e sentia a espuma bravia do mar salpicar-lhe as pernas, as mãos, o rosto, … penetrar-lhe os lábios − Ahhh! − num intenso orgasmo, salgado. Sentia o vento encaracolar-lhe os cabelos e sussurrar-lhe ininteligíveis segredos ao ouvido; e o cheiro da maresia invadir-lhe, violentamente, as narinas, seguir-lhe até ao cérebro e arrancar-lhe a imaginação para alto mar, sem rumo e sem fim, numa viajem alucinante de sentidos.
Depois, abria novamente os olhos e deitava-se na areia. Mergulhava, então, por ela adentro, numa movediça excursão ao centro da Terra, ao seu calor, ao seu âmago, ao seu sentido de ser…
E, sem resposta, acordava − já calma e humana − no carro que a trouxera, e que estacionara, ali mesmo, perpendicular ao oceano, uma espécie de redoma metálica onde, temporariamente, todo o mal tinha solução e todo o caos era ordem.

©
Sofia Bragança Buchholz, 2006. Reprodução Interdita

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