quarta-feira, agosto 17, 2005

Azares

– A senhora sabe se é seropositiva? – Perguntou a médica, dirigindo-se à prostituta que acompanhava os dois rapazes.
– Fiz o teste há pouco tempo e deu negativo – respondeu a mulher.
– Fizeram bem em vir os três à urgência. Se houver algum problema, quanto mais cedo se descobrir, mais hipóteses de sucesso se tem no ataque – informou, surpreendida por ver aquele trio entrar-lhe porta adentro e ao mesmo tempo satisfeita por terem tido a destreza de o fazerem.
– Ai, Doutora, que o diacho do preservativo tinha de romper! – Lamenta o rapaz, em pânico – Acha que posso ter apanhado a SIDA? Estava a fazer sexo anal… é pior não é, Doutora? – baralhava o rapaz, habituado aos ensinamentos masculinos da família, que em casa a mulher é para procriar e vias só há uma, aquela por onde nascem os filhos. E na rua, sim, onde está a maldade e o pecado, qualquer orifício serve, sendo os de maior prazer os proibidos no lar.
O outro rapaz mantinha-se calado. Na orgia tinha sido o escolhido, e premiado com um preservativo sem defeito. Ou mais resistente. Ou, talvez, a sua performance tenha sido menos entusiasta que a do outro, que fora brindado com um puf seco do látex.
A prostituta acompanhava-o no silêncio, parecendo inume a emoções. Se mentia nas respostas não se notava, se sofria com a sentença não dizia, se ansiava um prognóstico omitia. Parecia indiferente a tudo e a todos que a rodeavam, um autismo apurado, fruto de longos anos de treino a que a obrigava a sua profissão.
O rapaz chorava. Dois anos na prisão por tráfico de droga, um azar, nem precisava de andar nessa vida, pois que os pais tinham posses, comerciantes conhecidos que eram, fora apanhado a fazer um favor a um amigo que sofria na ressaca e ansiava por uma dose. E agora fora apanhado, novamente, mas na inconsciência dos seus tenros anos e do seu modelo de vida, pois que o pai também ia às putas, e gabava-se em casa em frente dos filhos homens, enquanto a mãe e a irmã, na cozinha, preparavam o cosido e temperavam os tomates para a salada.
– Ai, Doutora e agora? Não quero dar mais um desgosto à minha mãezinha, coitada. Já basta eu ter estado preso e agora isto…
E agora isto, o resultado foi positivo, o primeiro teste, e a médica guardava para si aquela informação, esperando a confirmação do resultado, sem querer alarmar antes de garantia, sem poder actuar antes de provas. E se tudo aquilo lhe parecia estranho à luz dos seus comportamentos e valores, não deixou de pensar naquela vez, há muito tempo, muito mesmo, antes do marido e dos filhos, da licenciatura e do doutoramento, do apartamento na Lapa e o BMW na garagem, em que numa semana de Queima das Fitas, numa noite de bebedeira, o álcool e o desejo falaram mais alto e deu uma queca com aquele tipo que não conhecia de parte nenhuma.
E ela, sim, nem sequer pediu para ele usar preservativo…

© Sofia Bragança Buchholz, 2005. Reprodução Interdita

6 Comments:

Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Até me arrepiei!

Pensamos sempre que só acontece aos outros, não é? Apesar de nunca ter tido nenhum comportamento de risco, sempre tive receio dos dentistas, por exemplo, e só quando estava para casar é que fiz, juntamente com o meu marido, esses exames todos. Foi um alívio ter ali os negativos à frente!

8:43 da manhã  
Blogger Benjamim said...

:-)
boa historia

5:14 da tarde  
Blogger Eterna Descontente said...

Benjamim! Que honra vê-lo “escrito” por cá! Seja bem vindo à minha caixa de comentários! ;-)


É verdade, Cokas, é sempre aos outros que achamos que acontecem as coisas…

5:25 da tarde  
Blogger Kwan said...

Mais uma grande historia...

4:23 da tarde  
Blogger alderango said...

Mais, mais!...

12:55 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Porquê que só um post com sexo e tragédia ganha tantos comentários?!?
Que povo tarado...

12:19 da tarde  

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